Para aprofundares os conhecimentos acerca da peça Frei Luís de Sousa podes consultar um estudo acerca da mesma aqui.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett: uma muito resumida abordagem
Este drama de Almeida Garrett foi representado pela primeira vez em 1843, tendo sido publicado no ano seguinte, sendo considerado a obra-prima do Teatro Romântico e uma das obras-primas da Literatura Portuguesa.
O enredo, inspirado na vida do escritor seiscentista Frei Luís de Sousa, de seu nome secular D. Manuel de Sousa Coutinho, tem como pano de fundo a resistência à dominação filipina. Sete anos depois de o seu marido, D. João de Portugal, ter sido dado como morto na batalha de Alcácer-Quibir, D. Madalena de Vilhena desposa D. Manuel de Sousa Coutinho, união de que nasce uma filha, Maria. A sua existência só é perturbada pelos tristes pressentimentos da frágil e sensível Maria e de Telmo, o velho aio que continua à espera do regresso de D. João. Este aparece, disfarçado de romeiro, e dá a conhecer a sua verdadeira identidade. O desfecho é trágico: Maria morre na igreja, no preciso momento em que os seus pais professam.
O crescendo dramático que envolve a acção culmina, assim, numa catástrofe, que é, todavia, de índole essencialmente psicológica e ideológica e conduzida com extrema sobriedade. Na célebre Memória ao Conservatório Real, que acompanha a peça, Garrett define o drama como «a mais verdadeira expressão literária e artística da civilização do século», sobre a qual exerce, ao mesmo tempo, uma «poderosa influência». Ressalvando que a índole da sua composição pertence ainda ao género clássico, critica o modo como na sua época se pretende fazer o drama, com um excesso de violência e de imoralidade, e alega ter desejado «excitar fortemente o terror e a piedade», usando de contenção e simplicidade.
Almeida Garrett - biografia falada
Um vídeo realizado por alunos do 11º ano de uma escola portuguesa, autores do BlogTeam.
Almeida Garrett - uma curta biografia
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (1799-1854) foi o iniciador do Romantismo e refundador do teatro português, criador do lirismo moderno e da prosa moderna, e ainda jornalista, político, legislador, em suma, um exemplo de aliança indissociável entre o homem político e o escritor, o cidadão e o poeta.
Tendo nascido no Porto, no seio de uma família burguesa, que se refugia em 1809 na ilha Terceira, a fim de escapar à segunda invasão francesa. Nos Açores, recebe uma educação clássica e iluminista (Voltaire e Rousseau, que lhe ensinam o valor da Liberdade), orientada pelo tio, Frei Alexandre da Conceição, Bispo de Angra, ele próprio escritor.
Em 1817, vai estudar Leis para Coimbra, foco de fermentação das ideias liberais. Em 1820, finalista em Coimbra, recebe com entusiasmo e optimismo a notícia da revolução liberal. Em 1821, publica em Coimbra O Retrato de Vénus, ainda marcada por um estilo arcádico. Arcádicos são igualmente os poemas que escreve durante este período e que serão insertos em 1829 na Lírica de João Mínimo, um dos livros que publicou.
Em 1822, é nomeado funcionário do Ministério do Reino, casa com Luísa Midosi e funda o jornal para senhoras O Toucador. Em 1823, com a reacção miguelista da Vilafrancada, é obrigado a exilar-se em Inglaterra e depois em França. Contacta então com a literatura romântica (Byron, Lamartine, Vitor Hugo, Schlegel, Walter Scott, Madame de Stael), redescobre Shakespeare e, influenciado pelas recolhas de cancioneiros populares, começa a preparar o Romanceiro.
Em 1825 e 1826, publica em Paris os poemas Camões e Dona Branca, primeiras obras portuguesas de cunho romântico, fruto da metamorfose estética em si operada pelas novas leituras. Em 1826, publica também o Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa, como introdução à antologia de poesia portuguesa Parnaso Lusitano.
Em 1826, durante um período de tréguas, regressa a Portugal e mostra-se confiante na Carta Constitucional acordada entre D. Pedro e D. Miguel. Dedica-se ao jornalismo político, nos jornais O Português e O Cronista. Em 1828, depois da retoma do poder absoluto por parte de D. Miguel, exila-se novamente em Inglaterra. Em 1830 publica o tratado político Portugal na Balança da Europa, onde analisa a história da crise portuguesa e exorta à unidade e à moderação. Em 1832, parte para a ilha Terceira e participa no desembarque das tropas liberais no Mindelo. Escreve, durante o cerco do Porto, o romance histórico O Arco de Sant’Ana e colabora com Mouzinho da Silveira nas reformas administrativas.
Em 1834, é nomeado Cônsul-Geral em Bruxelas, numa espécie de terceiro exílio motivado pelo cada vez maior desencanto em relação à política portuguesa (a divisão dos liberais, a corrida aos cargos públicos) e nessa cidade contacta com a língua e literatura alemãs (Herder, Schiller, Goethe).
Em 1836, regressa a Lisboa, separa-se de Luísa Midosi e funda o jornal O Português Constitucional. No mesmo ano, é incumbido pelo governo setembrista de Passos Manuel da organização do Teatro Nacional. Nesse âmbito, desenvolverá uma acção notável, dirigindo a Inspecção Geral dos Teatros e o Conservatório de Arte Dramática, intervindo no projecto do futuro Teatro Nacional de D. Maria II e escrevendo ao longo dos anos seguintes todo um repertório dramático nacional: Um Auto de Gil Vicente, Dona Filipa de Vilhena, O Alfageme de Santarém, Frei Luís de Sousa. É por esta altura que inicia um romance com Adelaide Pastor, que morrerá em 1841, deixando-lhe uma filha (episódio que inspirará Frei Luís de Sousa).
Em 1838, torna-se Deputado da Assembleia Constituinte e membro da comissão de reforma do Código Administrativo. Em 1846, sai em volume o «inclassificável» livro das Viagens na Minha Terra, publicado um ano antes em folhetim na Revista Universal Lisbonense. Em 1851, depois de um período de distanciamento face à vida política, regressa com a Regeneração, movimento que prometia conciliação e progresso.
Nesse ano, funda o jornal A Regeneração, aceita o título de Visconde e reassume o seu papel de deputado, colaborando na proposta de revisão da Carta. Em 1852, torna-se, por pouco tempo, Ministro dos Negócios Estrangeiros. Em 1853, publica o livro de poesias Folhas Caídas, recebido com algum escândalo: o poeta era, na época, uma figura pública respeitável (deputado, ministro, visconde), que se atrevia a cantar o amor desafiando todas as convenções, e muito souberam ver na obra ecos da paixão do autor pela Viscondessa da Luz, Rosa de Montufar. Em 1854, morre em Lisboa, aos cinquenta e cinco anos.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Questionário sobre Frei Luís de Sousa
Podem ter acesso a um questionário sobre a obra Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, através desta ligação.
Olhares
Primeiro olhar .. Choco-me com a realidade de ter acabado, ter acordado de um sonho, com os pés destapados, cheia de frio. Segundo olhar .. Meio zonza, olho para cima e para baixo, nada vejo, olho em redor, aproximo-me mal sei de onde, e sinto as paredes que me rodeiam, frias, despidas, com piquinhos pontiagudos que me arranham as mãos só de lhes tocar. Apercebo-me que estou sozinha, sinto que perdi alguma coisa, penso, e não sei bem o quê. Estou numa gruta, está frio cá dentro e não vejo um único foco de luz. Não tem saída e nem sei por onde entrei. Um passo, outro passo, e o eco aumenta, estou então cada vez mais no fundo e as paredes tornam-se cada vez mais apertadas, confesso, estou com medo, o meu corpo inteiro, de tanto trémulo que está, já nada sinto a não ser as paredes a fecharem-se cada vez mais. Ao aproximarem-se mais ainda, sinto uma enorme vontade de escapar dali, da minha mente não saem os sorrisos, olhares, momentos, e até lágrimas, mas a minha realidade tem sido outra, as lágrimas já não são de desabafo e muito menos de alegria, são de dor. De uma dor intensa que me esfaqueia, me desfigura, me prende. Não sei o que se passou, o meu estômago da voltas e voltas cada vês que tento perceber como vim aqui parar. Mas agora não me importa, eu não quero saber. Sim, pela primeira vez na vida vou dizer “eu não me importo”. Encho-me de força, e agarro a minha coragem com toda ela, rebento as paredes que me cercam e sinto-me a super-mulher, eu sinto-me invencível pois tenho vontade de vencer. Começam a surgir pequenos focos de luz e lá no cimo, onde essas paredes que me escondem, começam a desvanecer, observo, é o meu terceiro olhar, vejo um monte de dedos, palmas de mão, até que me apercebo que são braços estendidos. Os meus amigos estão aqui, aqui comigo, é certo que me fechei neste beco e que não estava a conseguir lidar com isso, eis que eles chegaram e me atiraram uma corda, bem forte. Subi, subi e subi, agarrei-os e disse “sem vocês nada era possível”. Agora sim, estou pronta para seguir, eles, ajudaram-me, eles provaram que estão presentes, que existem, e que, ao menos, são a minha maior certeza na vida que nunca hei-de questionar. Agora é uma batalha minha, seguir o meu caminho, que já está meio caminho andado. Obrigado meus amigos.domingo, 25 de janeiro de 2009
Eu aceito.
Eu quero, eu consigo.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Suspiro
Mas, os meus amigos – sim, aqueles a quem verdadeiramente posso chamar verdadeiros amigos, sem me arrepender de verdade, instantaneamente – acabaram de sair da minha casa. Hoje não foi festa, ainda bem! Hoje estou assim, um tanto com a cabeça no sítio. Não vim aqui para ‘contar o meu dia’, ou expor ao mundo que é este blogue o que aconteceu ou deixou de acontecer – para isso, utilizava o meu estranho Pão de Forma; o que vim, efectivamente aqui expor foi o tamanho, o ENORME tamanho do valor que dou a cada um deles, esses tais que me ocuparam a casa!
Mas que raio de pergunta! Acho que dei isto em filosofia, interrogações retóricas, desconfio; e para veres que não estou assim tão desatenta, também sei que é uma figura de estilo! Ela bem sabe quem cá esteve, os meus rapazes! Os rapazes que não precisam que eu diga os seus nomes para eles saberem quem são. Do mais baixo ao mais alto, do mais calmo ao mais eléctrico; hoje estivemos todos em sintonia. Como já disse, hoje não houve festa, e essa sintonia traduziu-se em música e sorrisos: ouvimos de tudo, cada um teve o seu tempo para as escolher, portanto foram umas horinhas variadas, o Senhor Gonçalves é que não deve ter ficado muito contente (eu também não ficaria se os ‘putos do lado’ ouvissem Madball e Valete às tantas da noite….). Quanto aos sorrisos, não são só sorrisos, mas um misto de sentimentos tão alegres quanto reais – o que me deixa ainda mais alegre –. O meu signo dizia-me que por esta altura, eu iria estar numa boa com a vida, que iria estar mais próximas das pessoas, que me iria sentir bem com os outros e, fundamentalmente, comigo. Pois bem, é isso mesmo: hoje não quero fugir de mim, não quero fugir deles e tive esta tão grande necessidade de escrever sobre isso. Hoje não estou preocupada com artimanhas e os tais floreados, porque isto é pura e simplesmente um suspiro!
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
O Romantismo - ligações na Internet
Podem encontrar diversas informações sobre o Romantismo e as suas características através das seguintes ligações:
Primeira ligação.
Segunda ligação.
Terceira ligação.
Quarta ligação.
Quinta ligação.
Para ler sobre as características românticas em Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, clicar aqui.
Para saber mais sobre Garrett e Frei Luís de Sousa, clicar aqui.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Um dia, eu espero.
Já há algum tempo que tenho vivido na incerteza, no estar e não-estar, entre o saber e não saber, numa balança que nunca mais se equilibra. A minha vida tem sido um relógio, que em vez de horas, marca saudade, angústia, dor, sofrimento, sensação de impotência, fraqueza, e sabe-se lá que mais. Já não sei o que é ser feliz, já não sei se felicidade existe ou não passa de mera ilusão. Duvido de tudo o que me aparece à frente, tento estar no topo, ultrapassar este sentimento que quase não cabe em mim, mas basta um olhar, uma frase, um dia, a coisa mais invulgar, que me faz ir logo abaixo, fico sem forças, estendida no chão sem me conseguir levantar(…)- E da mesma maneira em que a maior onda da maré alta te trouxe a mim…
(…) Por muito que lute, por muito que dê tudo o que tenho e que não tenho, por muito que me entregue, não entendo… Eu fiz tudo, e nem uma opurtunidade de mostrar que juntos conseguíamos, que juntos vencíamos, como sempre o fizemos, nem isso foste capaz de me dar. Preferiste pensar que “não dava”, em vez de tentares, desculpa, mas ninguém tem o puder de prever o futuro, feiticeiros e magos não existem, logo, sem tentares, nunca poderias saber se deu ou se não deu, não tentas-te.(…)
(…) Eu? Eu já não sei quem sou, o que é isto em que me tornei por tua causa. O único brilho que conheço hoje é o das lágrimas cintilantes que teimam a cair de dia para dia(…)
- Fiquei em terra, não estou sozinha, sei que não, mas no meio da multidão assim me sinto…
(…) Tu? Tu já não és aquele por quem me apaixonei, aquele por quem pus o orgulho de lado, aquele a quem me entreguei, aquele que idealizou a perfeição, aquele “tudo”, aquele que me fez acreditar que o “para sempre” existia, e que eu podia ser feliz. És uma coisa que eu não reconheço, transformaste-te num ser vulgar que me mete raiva, me faz sofrer e que no fundo, não consigo deixar de amar(…)
- Neste mar, onde a tempestade se instalou, permaneço… Não sei porquê, e o pior… Não sei até quando…
(…) Mas eu não posso não ser eu. Não posso continuar assim. Não vou fracassar embora tudo o que me apetece dizer é “Não consigo continuar”, embora todos os dias me pergunte “porquê” e não ache resposta… Eu sou eu, e por muito que me custe, tenho de lutar contra a minha vontade, a vontade de querer estar contigo incondicionalmente, mas não suporto a dor de estar à espera, não suporto que me magoes e saibas que o estás a fazer e como tal… Por muito que me custe, porque sei que pode ser a coisa mais difícil que vou ter de fazer na vida, mas tenho de me afastar. Este ambiente de batalha naval, as ondas agitadas que têm permanecido metem-me o estômago e sabe-se lá que mais às voltas. Eu preciso de me encontrar, eu preciso de saber quem sou(…)
- E mesmo na incerteza desse tempo, e sabendo da tempestade, arrisco e vou naufragar, como eterna maruja do amor que sinto. Eu vou embarcar nesse mar…
(…) Desistir? Não, isso é para os fracos. Sim, já fracassei, mas desistir dos meus sonhos é coisa que me recuso a fazer. Vou apenas ajudar o tempo na sua decisão, vou ajudar-me a mim e a ti, ambos precisamos de reflectir, e eu sei que se tiver de ser, vamos vencer(…)
- Sem saber a rota, os pontos cardeais hão-de me levar onde o destino quiser, onde tiver de ser. Já estou em mar alto, se um dia tiver de chegar a ti, chegarei, da mesma forma que não estava à espera de cair nos braços da magia que é amar, sei que quando menos esperar, este mar vai acalmar.
(…) Um dia, eu espero.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Romantismo - características
Para observares as principais características do Romantismo, clica aqui.
Neo-Classicismo e Pré-Romantismo
O século XVIII costuma designar-se por «Século das luzes» ou «Iluminismo» pelo predomínio que a Razão, como luz esclarecedora, passou a exercer nas formas do Pensamento.
Define-se, como sistema filosófico, o Racionalismo (que vai conduzir ao ateísmo e ao positivismo do século XIX) com a Crítica da Razão Pura, de Kant (1724).
O Racionalismo produz os germes de revolta contra a opressão espiritual da escolástica durante o século XVII. É, pois, o século XVIII, fundamentalmente, um século de crise espiritual que leva os homens à objectiva e aguda percepção dos males da época; é, por consequência, uma época em que floresce de modo extraordinário a crítica, sob a forma de sátira ou de obras e ensaios didácticos, cartas, métodos e tratados. O género satírico apresenta-se, pois, como um dos mais copiosos e representativos.
Apreciando criticamente a produção do período barroco, os escritores apercebem-se da debilidade de conteúdo de muitas das manifestações literárias e iniciam a sua luta contra a superabundância ornamental e os excessos formais. As Academias (que nas últimas décadas do século anterior se haviam já anunciado com o aparecimento da Academia dos Generosos e da Academia dos Singulares) correspondem a esse desejo de luta e de aperfeiçoamento crítico e esclarecido. Surgem assim as Academias (numerosas e activas, como a dos Anónimos, dos Ocultos, dos Aplicados, dos Unidos, dos Obsequiosos, etc.), de que, em 1720, convém assinalar a Academia Real da História, fundada por decreto do rei D. João V. Os nomes mais relevantes dessa colmeia laboriosa foram: D. António Caetano de Sousa, Diogo de Barbosa Machado, Francisco Leitão Ferreira, José Soares da Silva. A História vai-se, progressivamente, aproximando dos ramos do conhecimento científico para se afastar dos géneros literários aos quais até agora estivera estreitamente vinculada. A pesquisa e a crítica documental tomam, pouco a pouco, feição nitidamente científica.
Em 1780, no reinado da rainha D. Maria I, o Duque de Lafões, secundado pelo Abade Correia da Serra, obtém a fundação da Academia Real das Ciências substituindo a da História, órgão cultural ainda hoje sobrevivente. Fr. Manuel do Cenáculo, Ribeiro dos Santos, António Caetano do Amaral, Francisco Alexandre Lobo, Frei Fortunato de S. Boaventura, Coelho da Rocha, etc. foram alguns dos seus nomes mais ilustres durante o século XVIII. A Academia Real das Ciências (que, em 1910, data da implantação da República, passou a chamar-se Academia das Ciências de Lisboa) possui uma Biblioteca notável que já no século XVIII contava mais de 200000 volumes, entre os quais 112 incunábulos e raridades bibliográficas de incalculável valor.
A Arcádia Lusitana ou Ulissiponense, fundada em 1756, da qual foram membros fundadores António Dinis da Cruz e Silva, Esteves Negrão e Correia Garção, foi, porém, a mais notável e importante das Academias literárias e manteve-se durante vinte anos, depois do que foi reorganizada com a designação de Nova Arcádia. Visava, como esclarecem os seus estatutos, reformar o gosto deteriorado e reacender o interesse das novas gerações pelas artes literárias; pretendia, pois, «formar uma escola de bons ditames e de bons exemplos em matéria de eloquência e de poesia, que servisse de modelo aos mancebos estudiosos e difundisse ( ... ) o ardor de restaurar a antiga beleza destas esquecidas Artes».
As bases em que os árcades fundamentavam a sua acção reformadora consistiam, principalmente:
• na crítica mútua, objectiva e desassombrada das produções literárias apresentadas nas sessões da Arcádia pelos seus sócios;
• no regresso à imitação dos clássicos da Antiguidade, como fontes mais puras da perfeição literária, embora adaptando-os ao gosto moderno.
Segundo os árcades, pois, as causas verdadeiras da decadência literária provinham do abandono dos genuínos clássicos e da busca de inspiração na repetida imitação dos renascentistas.
Os membros da Arcádia, isto é, os Árcades, que assinavam as suas produções com pseudónimos literários, tinham como emblema uma mão empunhando uma foice, e como legenda o lema da mesma Arcádia: Inutilia truncat (ou seja, corta o que for inútil).
O seu principal objectivo era, com efeito, restaurar a sobriedade e equilíbrio do classicismo, fugindo aos excessos do gongorismo; preconizava-se também a libertação da rima que, segundo eles, embaraçava a livre expressão do pensamento.
O principal teorizador do neoclassicismo - isto é, desta tentativa de regresso à pureza dos moldes clássicos - foi Pedro António Correia Garção, que é considerado, ao mesmo tempo, o exemplificador mais perfeito dessas doutrinas.
Como principais documentos dessa teorização literária citaremos a famosa Sátira sobre a Imitação dos Antigos, dirigida ao conde de S. Lourenço, e a Epístola a Olino. A Cantata de Dido é, com justiça, considerada como a mais perfeita exemplificação das teorias preconizadas.
Verifica-se, no entanto, que o neoclassicismo falhou nos seus objectivos, embora tivesse dado frutos positivos como preparação para a atitude mental pré-romântica e chamado a atenção para a frustração literária que se vinha verificando. De resto, a sua acção prevalece concomitantemente com o pré-romantismo e os moldes arcádicos mantêm-se mesmo para além da implantação do Romantismo.
Com o influxo da poesia germânica, porém, envereda-se por um caminho diferente de renovação - o pré-romantismo, que consiste na busca da inspiração, não nas já exauridas ruínas clássicas, mas nas inesgotáveis fontes do mundo interior do próprio indivíduo. Essa será a via segura duma profunda revolução mental e espiritual que se concretizará com o movimento romântico.
Três anos após a fundação da Arcádia, efectivamente, já Correia Garção se apercebera da falência dos seus objectivos fundamentais, e atribuía essa falência a causas meramente exteriores: a falta de assiduidade dos membros, a falsificação da critica objectiva. As verdadeiras razões, porém, estavam nas novas necessidades estéticas que só encontrariam solução com o advento - já próximo - do Romantismo.
Quanto aos mais importantes membros da Arcádia, além de Garção, de que falaremos a seguir, é digno de menção especial António Dinis da Cruz e Silva.
Depois da relativa falência dos objectivos da Arcádia, verificou-se que o caminho para obviar aos males da Escola Barroca devia ser outro que não um
regresso ao ponto de partida, isto é, à imitação dos clássicos. Desse modo, influenciados principalmente pelas literaturas germânicas, alguns poetas verificam que, se as fontes clássicas, sempre iguais a si mesmas, podem esgotar-se, existe uma fonte sempre renovada de inspiração, que é o tesouro íntimo de cada um. Se os estados de alma não podem repetir-se nem identificar-se uns com os outros, a sua expressão deve participar das mesmas características.
Esta concepção está relacionada com o advento das ideias individualistas da Revolução Francesa, reflexo do movimento espiritual que comprometeu todo o pensamento europeu. Com efeito, a preferência que começa a manifestar-se na literatura pelos temas da solidão, trevas e morte, não é mais do que a afirmação dum individualismo sentimental que deste modo se revela por oposição ao que rodeia o poeta; isto é, a afirmação do seu eu isolado em relação ao mundo exterior.
Entre os que, mais decisivamente, se lançaram neste novo rumo, citaremos Bocage e a Marquesa de Alorna, Alcipe (além destes, Filinto Elísio e José Anastácio da Cunha enfileiram em tendências semelhantes). Nestes poetas, encontramos já muito dos elementos que podem considerar-se como definidores duma estética romântica:
· gosto pela solidão;
· identificação da natureza com os estados de alma;
· preferência pelas paisagens sombrias e agrestes ou tumultuosas.
· utilização literária do maravilhoso popular (fadas, génios, gnomos);
· adopção duma simbologia especial - aves nocturnas, espectros - que vai conduzir ao aproveitamento do belo-horrível como tópico da literatura romântica;
· preferência pelos temas da noite, da escuridão, etc.