segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Liguem 112 ..
As Aulas Vão Começar .. xDD
E é já amanhã!! Até dói .. Eheh
BeijinhOs e bOa sOrte para MAIS um anO escOlar ..
Divirtam-se ^^
quarta-feira, 22 de julho de 2009
sábado, 20 de junho de 2009
domingo, 14 de junho de 2009
domingo, 7 de junho de 2009
Dança _ 11ºG _ 2009
Não poderia deixar de publicar este excelente vídeo xDD da dança de Educação Física dos dois Grupos da Turma 11ºG, (A MINHA :D ) .. Montagem da Inês.. ^^
Artistas deste vídeo: Todos os alunos da turma G
Turma de Artes Rula _ Final de Ano em Grande
05.Junho.2009
BOAS FÉRIAS A TODOSSS
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Just a Normal Day - Supertramp
Desalmadamente
Este calor não me atinge
E o negro não absorve mais
A luz.
Não é isto que me aquece
Já não é mais isto que me
Zero graus
E eu estou negativa.
Mais que isso. Morri
Desgraçado Comunista!
Estúpida vontade que tive em
Confiar-te os meus
Sonhos…
E este vento?
Não me demove mais…
Faz correr as minhas
Lágrimas.
Velozmente. Ferozes.
- Ele hoje está triste
Tenta saber o que lhe
Aconteceu.
E eu? Onde está o
Espaço para mim?
Deixa-me ser alguém
Por favor!
Já não há nada.
Nem nunca passou
Disso mesmo.
Desgraçado Comunista
Que acha que tem o direito
De me perturbar!
"Crisis? What crisis?"
Puta de vida!
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Dois vídeos sobre o amor e um sobre um dia perfeito, quase em despedida
São músicas de épocas bem diferentes, que marcaram amores, paixões, desilusões. E a amizade, com um aviso no final. E nenhum deles é em português. Vejam só...
Ah, e ficam também as letras.
Bryan Ferry - I Thought
I thought you'd be my streetcar named desire
My way - my taste of wine
I thought you'd be that flame within the fire
One dream that just won't die
All night - out looking for new love
Impossible true love - nothing at all
Looking for new gods - looking for new blood
Looking for you
I thought I'd find you walking in the rain
Just like a wayward child
I thought I'd find you calling out my name
So foolish is my pride
All night - looking for new love
Impossible true love - nothing at all
Looking for new ways - looking for strange blood
Looking for you
I thought I'd be your streetcar named desire
Your man - the one you seek
I thought I'd take you deep within myself
Subtitles when we speak
Hold on - the flower says reach out
The thunder says no shout is greater than mine
Listen and hold on - till the day fades out
Smothered in gold.
Michel Polnareff - Love me, please love me
Love me, please love me
Je suis fou de vous
Pourquoi vous moquez-vous chaque jour
De mon pauvre amour ?
Love me, please love me
Je suis fou de vous
Vraiment prenez-vous tant de plaisir
A me voir souffrir ?
Si j'en crois votre silence
Vos yeux pleins d'ennui
Nul espoir n'est permis
Pourtant je veux jouer ma chance
Même si, même si
Je devais y brûler ma vie
Love me, please love me
Je suis fou de vous
Mais vous moquerez-vous toujours
De mon pauvre amour ?
Devant tant d'indifférence
Parfois j'ai envie
De me fondre dans la nuit
Au matin je reprends confiance
Je me dis, je me dis
Tout pourrait changer aujourd'hui
Love me, please love me
Je suis fou de vous
Pourtant votre lointaine froideur
Déchire mon cœur
Love me, please love me
Je suis fou de vous
Mais vous moquerez-vous toujours
De mes larmes d'amour ?
Lou Reed & Friends - Perfect Day
Just a perfect day,
Drink sangria in the park,
And then later, when it gets dark,
We go home.
Just a perfect day,
Feed animals in the zoo
Then later, a movie, too,
And then home.
Oh it's such a perfect day,
I'm glad I spent it with you.
Oh such a perfect day,
You just keep me hanging on,
You just keep me hanging on.
Just a perfect day,
Problems all left alone,
Weekenders on our own.
It's such fun.
Just a perfect day,
You made me forget myself.
I thought I was someone else,
Someone good.
Oh it's such a perfect day,
I'm glad I spent it with you.
Oh such a perfect day,
You just keep me hanging on,
You just keep me hanging on.
You're going to reap just what you sow,
You're going to reap just what you sow,
You're going to reap just what you sow,
You're going to reap just what you sow...
domingo, 31 de maio de 2009
El titulo no me dice nada!
Janela na busca de
Te encontrar.
Sorria-me o vento
Aos ouvidos, lânguido,
Pela face.
Não havia maneira
De chegares.
O pinheiro em frente
Mal se mexia. Como que
Se o vento lânguido não lhe
Tocasse. Impávido, imponente.
O único candeeiro que iluminava
A estrada
Reflectia nos vidros dos carros
Petrificados.
Não lhe sabia o nome;
E passa agora
Mais um.
Cada vez mais fraco
E mais, e mais
Tenho a minha luz apagada
Escrevo no leito de uma
Vela aromática.
Fixei os meus olhos no
Barulho do rio que não via
Inspirei ao ritmo da baunilha
Límpida e terna.
Tu teimavas em não chegar
Dou mais um gole no meu
Cálice. A tua espera
Mata-me; e tu
Demoras com intenção!
Odeio-te por dares
Cabo de mim e
Me possuíres até à alma…
Quando chegares, possivelmente
Já nem estou acordada.
Já o meu cálice estará
Bebido e esta janela,
Que me desvenda, trancada.
Este calor consome-me o
Espírito. Finalmente apagou-se
O candeeiro maldito. Não há
Meio de chegares…
E também não vejo o fim
Desta espera nojenta.
Já não consigo
Seguir para outras paragens
Sem ti.
Vou onde me levares
Se me levares…
Já não há lágrimas para chorar
Porque já não há medos
Mas também já não sorrimos
Os dois, porque há uma coisa
Terrível.
A monotonia. E o pinheiro
Que continua sem se mexer,
Não se cansará de estar
Sempre ali a ver o mesmo
Velho candeeiro, os
Sempre forçados sorrisos,
As mulheres que esperam
Sempre os mesmos
Atrasos. Era capaz de viajar
Toda a noite conversando
Contigo mas de repente.
De repente uns faróis
Mortíferos descem a rua
Olhando para mim. Frios
Como o gelo. Atrás
Deles segue-se um carro
Negro. És tu. Finalmente!
Sorris-me da rua com
Um ar exausto. Mas já
Chegaste! Oiço abrires a
Porta. Entras no quarto e
Vens dar-me um beijo enquanto
Visto a camisa de dormir
Branca.
Oiço o microondas e os
Talheres a tilintarem. Sorrio
Comigo mesma.
É sempre igual, mas sabe-me
Sempre bem saber que te tenho,
Todas as noites, para mim.
Como se em todas elas, chegasses da guerra!
Cheesecake
O Mundo não está para brincadeiras. E eu não sei rigorosamente nada!
Não peço nada mais! x
28. Maio. 2009.
ainda procuro
Que chama por mim.
Para que eu lembre,
Que a noite tem fim.
Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Em nome de um sonho,
Em nome de ti.
Procuro à noite,
Um sinal de ti.
Espero à noite,
Por quem não esqueci.
Eu peço à noite,
Um sinal de ti.
Quem eu não esqueci...
Por sinais perdidos,
Espero em vão.
Por tempos antigos,
Por uma canção.
Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Por quem já não volta,
Por quem eu perdi.
Sétima Legião - Por quem não esqueci
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Uma análise do poema «A Débil», de Cesário Verde
Podem ter acesso a uma análise deste poema de Cesário Verde, num ficheiro em Powerpoint através desta ligação.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Análise do poema de Cesário Verde «Cristalizações»
Aqui fica mais uma ligação para a análise de um poema de Cesário Verde: «Cristalizações».
Poemas de Cesário Verde: algumas opiniões críticas
Poema «Num Bairro Moderno» - uma análise
Poema «Contrariedades» - uma análise
Para ver mais artigos sobre o autor: nesta ligação.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Análise do poema «Deslumbramentos», de Cesário Verde
Aqui fica uma ligação para uma análise possível de um poema de Cesário Verde: «Deslumbramentos», para que possa servir de exemplo de um trabalho sobre a poesia deste autor. Oxalá possa ajudar.
Um poema de João Miguel Fernandes Jorge
É pena que os programas de Português nunca cheguem à poesia contemporânea, aos poetas que, ainda vivos, vão escrevendo e publicando nos nossos dias.
Hoje deixo aqui um poema de João Miguel Fernandes Jorge, um dos mais conceituados poetas portugueses actuais, para além de ser um dos que conheço que escreve dos mais belos poemas. É um texto triste, que nos conta uma história, como tantas e tantas que sucedem todos os dias e que, as mais das vezes, nos passam ao lado, que ignoramos, talvez por não nos deixarem indiferentes. E fica aqui à atenção de quem tem por mau hábito abandonar os animais, ou mesmo de os magoar.
Ah, nesta página do sítio da BE/CRE da nossa escola podem ler-se mais alguns poemas. Aqui fica a nota.
O poema intitula-se
PRESÉPIO ANIMADO DA RIBEIRA GRANDE
Ainda todos se lembram do dezembro de 96.
Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte
da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na
berma, um gato de pelagem branca. Parecia
ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa
de pêlo curto, tinha uma chaga na orelha
alastrava pelo crâneo e pela fauce e
olho. Massa disforme de carne e sangue,
pancada de carro ou parede de muro desabado
a ferida. Animal muito manso, delicado e
tímido, deixou que me aproximasse
lhe pegasse e a trouxesse para dentro do
meu carro. Tremia de frio e também de medo e
dor. Enchuguei-a com um pedaço de
flanela, dei por mim chamando-lhe
Princesa: era muito nova, pequena,
de um branco que resistia ao lixo da terra
da quase sarjeta de onde a tirei; olhos
claros, amendoados. A mais
delicada e triste das gatas com a horrível
ferida a alastrar, implacável. Uma
gangrena que exalava cheiro pestilento
- a princesa branca apodrecia no dia
de natal. Havia uma caixa de cartão
no banco traseiro, coloquei-a dentro e
descobri a casa do veterinário. Era uma pasta
de sangue, carne e urina tão assustada
estava. O médico agarrou-a - eles já
cheiraram muita pestinência, os veterinários -
fez-lhe festas. Era muito meiga. Não
pude olhar enquanto a matava; meteu o
corpo branco, ainda quente, na caixa de
cartão. Levei-a, morta, e com aquele cheiro;
já quase noite. Enterrei-a num pequeno
jardim, bem perto do presépio animado da Ribeira
Grande, que nesse fim de dia de natal ainda
visitei. As lágrimas de nada servem, nem
por uma gata branca a que chamei Princesa,
durante uma escassa hora, a debater-se
com a morte. O sangue, a urina
o cheiro da gangrena. Este é o inferno
dos mortais, a sua beleza e fragilidade. A
morte é uma coisa e a vida, a mesma
coisa. A face da morte é o reflexo da
vida quando se debruça sobre a superfície
da ilha. Luze em todos os natais, suave,
esbatida de traços - palavra de traição
que rodeia o medo, o abandono.
domingo, 17 de maio de 2009
magia
Posso ter perdido o caderno onde fazia os meus rabiscos diáriamente,Posso ter perdido o arquivo onde guardava cada um deles por ordem,
Posso ter perdido as folhas soltas e os post-it
Posso até ter perdido a inspiração...
Mas hoje, vou à procura de algo novo.
Pois não perdi o afia nem o lápis,
Afiá-lo-ei, e traçarei uma nova rota.
Hoje há magia.
sábado, 16 de maio de 2009
No Balançar ^^
Uma batida mais forte
E a vibração faz-me mover.
Mais, é dançar até não poder,
É um pulsar e sentir-me renascer
Entre cada balançar do corpo.
Deixo que o som me leve.Leve como uma pluma,
Assim me sentir,
E subir… Subir ao infinito.
Dominada inteiramente,
Nada maior me faz parar.
Algo tão transparente à vista,
Mas tão suave ou barulhento ao ouvido,
Que me faz pensar! Pensar e sonhar.
Liberto energia, solto o peso
Que me mói todos os dias.
Salto, bato palmas, grito!
Balanço numa ampla sala,
Rodo sem nada me tocar.
Sem ninguém me ver.
E aplano num chão,
Frio, duro, mas sabedor
Da dor de ser pisado por alguém
Que nada mais pode fazer,
A não ser balançar, e balançar para acalmar!
2009-04-9
terça-feira, 12 de maio de 2009
A Débil, de Cesário Verde
Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.
Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.
E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.
"Ela aí vem!" disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.
Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, — talvez que não o suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.
Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.
Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.
Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!
Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.
Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.
"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.
E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.
E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és tênue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.
Novembro, 1876
Ficha informativa sobre a poesia lírica
Aqui fica uma ligação para poderem descarregar a ficha informativa sobre a poesia lírica e as suas características.quinta-feira, 7 de maio de 2009
isto não é título, mas nunca pensei usar esta palavra tantas vezes!
Hegemonia de sentimentos destruídos por Ti;
Só por Ti.
Causalidade nula
Impressão perdida.
Abomino-te por me estimares
Por cada vez que me procuras
E me encontras.
Oxalá um dia engulas cada promessa que rematas!
No vagar do meu ser és o inconstante
O arrepio perverso que me faz
Capaz
De devorar espadas de pontas desembotadas
Armaduras esquecidas.
Ventos que levaram as nossas defesas
Nudez pérfida
Descrente de escudos e de ferros.
Tempestades usurpadoras.
Oxalá um dia engulas cada promessa que rematas!
Oxalá morramos com o pretexto de
Nos descobrirmos
Como não podemos descobrir agora.
Oxalá haja vida depois da transição
Mas oxalá eu nunca te encontre
Oxalá que nunca me toques
Com essas mãos sujas de vida
Oxalá te saiba um dia.
STOP
sábado, 25 de abril de 2009
Quero, mas...
Quero... não sentir o que sintodomingo, 19 de abril de 2009
Três textos sobre a obra de Cesário Verde
A poesia de Cesário
“(…) A sua poesia é a dum artista plástico, enamorado do concreto, que deambula pela cidade ou pelo campo e descreve de modo vivo, exacto, as suas experiências. Esta «objectividade» antilírica da sua obra poética não impede todavia a expressão, embora discreta, de ideias e sentimentos que definem o homem situado: o amor da actividade útil, saudável; o respeito pela ciência positiva do seu tempo; a confiança no progresso; a solidariedade com os humildes, vítimas das injustiças sociais. Nos versos do Conde de Monsarás, seu amigo, aplaude «o protesto franco e salutar em favor do povo». E, quando exalta o trabalhador, símbolo da energia indomável do povo, os seus versos ganham, excepcionalmente, um movimento oratório:
«Povo! No pano cru rasgado das camisas.
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas:
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!»
(in «Cristalizações»).
O contraste entre o egoísmo dos ricos e a miséria dos pobres é o tema que fica em suspenso no último poema de Cesário Verde, deixado incompleto («Provincianas»).
Muitas vezes, aliás, o poeta refere a si próprio, espectador, imagens e sensações, e a «objectividade» plástica alterna, em vários passos, com a fuga imaginativa. Se é «realista» o vocabulário do poeta, cheio de termos concretos, alguns deles técnicos ou da linguagem familiar («biscate», «salmejo», «valador», «amoniacal», «batatal», etc.); se é analítica a sua frase, feita de notações justapostas, com séries de adjectivos que procuram cingir os contornos e o poder sugestivo das coisas («Sobre os teus pés decentes, verdadeiros, / As saias curtas, frescas, engomadas»); se, mais ainda, num esforço renovador, paralelo ao que Eça de Queirós leva a bom termo na prosa, Cesário tira partido de processos vincadamente impressionistas, fazendo avultar a sensação inicial, só depois referida ao objecto («Amareladamente, os cães parecem lobos») ou combinando sensações e misturando o físico e o moral («Ombros em pé, medrosa e fina, de luneta! »); noutros casos assistimos, na poesia de Cesário Verde, ao jogo do «real» e do «irreal»: os estímulos da circunstância fazem evocar o ausente (os calafates lembram ao poeta «crónicas navais», «soberbas naus» que ele nunca verá; as varinas «embalam nas canastras / os filhos que depois naufragam nas tormentas») ou vem a imaginação transfigurar as coisas vistas, transformar, de noite, as lojas iluminadas em «filas de capelas» duma enorme catedral, etc. Por breves momentos, é certo, porque logo o poeta tem de regressar à esfera sensorial, à «realidade» comum. E Cesário, artista muito lúcido, com invulgar consciência crítica (nisto reside, em parte, a modernidade que o torna um admirável precursor), não deixa de comandar, de organizar estas alternativas. (…)”
“Os ensaístas que, com mais penetração, se têm ocupado de Cesário (David Mourão-Ferreira, Joel Serrão) interessaram-se, de preferência, pelo binómio campo-cidade na obra do negociante-poeta. Sob o signo de Baudelaire, Cesário Verde deixa-se algum tempo conquistar pelas seduções da urbe; traça «quadros revoltados», medita «um livro que exacerbe», queixa-se de tédio, diz amar «insensatamente os ácidos, os gumes / E os ângulos agudos». Tem a nostalgia dos grandes centros: «Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo! » Torna-se o poeta por excelência de Lisboa, cuja figura multifacetada descobrimos, inteira, em poemas como «Num Bairro Moderno» e «O Sentimento dum Ocidental» - desde a paisagem física (a Baixa pombalina, as ruelas junto ao rio, os bairros novos, de ruas amplas, macadamizadas) à paisagem humana (padres, militares, altos funcionários, burguesas e «imorais», padeiros, vendedeiras de hortaliça, varinas, operários, calceteiros, arlequins e mendigos), sem esquecer as metamorfoses do ciclo das horas (a Lisboa nocturna, com a sociedade elegante, misérias e grotescos à luz débil do gás, e a cidade soalhenta, garrida, laboriosa) e a situação geográfica (os cais, os emigrantes, a ânsia do mar desconhecido, as tradições dos Descobrimentos). Mas já quando percorre a cidade o poeta deixa entrever o desejo de espaços mais amplos, dum ar mais puro, duma vida mais sã. (...)”
Jacinto do Prado Coelho, Dicionário de Literatura, 3ª edição, Porto, Figueirinhas Ed., 1985 (Volume 4)

“(...) Cesário Verde é o único poeta do grupo tido como realista que consegue superar, de facto, a herança romântica. Em poemas como De Tarde, Nós, Contrariedades, Cristalizações, O Sentimento de um Ocidental, não se nos deparam os vagos operários e prostitutas do progressismo verboso de certos contemporâneos, nem o oco pessoalismo ultra-romântico. Ele é o poeta cuja neurastenia se retrata e ironiza num quarto real, à vista do drama concreto dos vizinhos; que, perceptivelmente, deambula e namora em Lisboa, ou examina o campo com o olhar penetrante de proprietário rural. Assim tudo ganha volume: o sonho não diminui a vida: alimenta-se dela e a ela volta, a tonificar-se («Lavo, refresco, limpo os meus sentidos / E tangem-me excitados, sacudidos, / O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto»).
Esse poeta, quase sem precedentes nem continuadores entre nós, assimilando organicamente o que aprendeu de Baudelaire e Coppée, descobre a beleza enérgica, a «riqueza, química do sangue» dos operários «enfarruscados e secos» dos arsenais, ou de um «cardume negro» de varinas, ou do tinir no granito do aço dos calceteiros, e de toda a utensilagem dos ofícios manuais; vibra em simpatia com toda uma cidade viva, por vezes num «desejo absurdo de sofrer»: com o enjoo do gás extravasado, o chorar dos pianos das burguesinhas, o arrepio de um «Dezembro enérgico e sucinto», com o sol espelhado nas poças da chuva recente, as trindades, os passos da patrulha, o toque das grades nas cadeias, os clarões das lojas nas naves das ruas, uma hortaliceira regateando para o pão, uma engomadeira tuberculizando e sem ceia, os focos infecciosos da febre amarela.
Para exprimir este mundo, até então realmente desconhecido da poesia (...) Cesário renovou completamente a estilística tradicional da nossa poesia. Experimentou uma imaginária por vezes muito feliz. Introduziu no verso o processo queirosiano de suprir pelo adjectivo ou pelo advérbio uma relação lógica extensa, de imediatizar, pela surpresa da relação verbal, uma sugestão que morreria se se desdobrasse logicamente: «quando passas, aromática e normal»; «cheiro salutar e honesto ao pão no forno»; «pés decentes, verdadeiros»; «eu tudo encontro alegremente exacto»; «amareladamente, os cães parecem lobos»; etc. A par disto, Cesário consegue valorizar poeticamente o vocabulário e o tom de fala mais correntios na linguagem coloquial urbana, embalando o leitor num ritmo que ondula entre a atenção ao pormenor e um abrir de horizontes, entre a sátira ou a degradação, que nos oprimem, e um relance de beleza real, que nos expande.
As citações já feitas exemplificam bem o sopro renovador da sua sensibilidade, quaisquer que sejam os grumos de prosaísmo ainda por diluir nas poesias da sua maturidade, datável de cerca de 1877. Os «delírios mornos», as notações convencionalmente neuróticas ou depravadas, os excessos metafóricos de encarecimento sensual, certas margens de sátira demasiado crispada não condizem com o seu mais radicado sentir. Mas seria errado ver apenas Cesário Verde como ele frequentemente queria ver-se nos textos mais citados da sua obra, prematuramente interrompida pela morte aos 31 anos. O recorte voluntariamente britânico, «hábil, prático, viril», masculamente protector das feminilidades frágeis, com que se apresentava em pessoa, e muitas vezes em verso, o seu intermitente prosaísmo, que ama «a claridade, a robustez, a acção» não devem fazer esquecer outras facetas de uma afectividade por vezes finíssima. De outro modo, em sensibilidade sadia mas complexa, Cesário poderia confundir-se com a saúde mais banal do seu amigo, também poeta realista, Macedo Papança, mais tarde conde de Monsaraz, a quem de resto são endereçadas algumas cartas suas com deliciosos textos em prosa do mesmo estilo.
A coragem de assumir atitudes tidas como prosaicas não deixa de consentir muitos momentos frouxos, mas o que melhor distingue Cesário é o dom de chegar a percepções surpreendentes como estas: «Um parafuso cai nas lajes, às escuras», pormenor que só por si denuncia o fundo acústico rarefeito da cidade anoitecida e despovoada; «e os olhos de um caleche espantam-se sangrentos»; «e o sol estende, pelas frontarias / seus raios de laranja destilada» (…). Por outro lado, (...) ganha dimensões históricas: o poeta adivinha nas burguesinhas solteiras que tocam piano o mesmo histerismo das antigas freiras, também condenadas a uma estéril vida solteira por falta de noivos socialmente idóneos; de vez em quando dá a sentir, nas sombras de um templo ou dos arruamentos estreitos, o peso secular de tradições clericais redivivas; e os seus calceteiros talvez se inspirem nos de um célebre quadro de Courbet, mas denunciam, como em geral os seus operários urbanos e a própria paisagem ainda suburbana, as origens rurais de que a Capital estava ainda a surgir (…)”
António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 8ª edição, Porto Editora, 1975
“Cesário é o poeta que, mal compreendido na sua época, irá exercer uma forte influência relativamente ao desenvolvimento da nossa poesia no sentido de uma modernidade que, mais tarde, a geração de Orpheu reconhecerá. (…) A crítica tem chamado a atenção para o facto de haver nessa poesia uma capacidade para visualizar e analisar através de uma especial percepção a realidade, afirmando-se, assim, na sequência dos movimentos naturalista e realista ficcionais, o que não impede de nela se desenhar também uma dimensão simbólica e transfiguradora. Cesário Verde teve a consciência da intenção que o animava ao projectar na sua poesia certos efeitos do real, intencionalmente perseguidos, como testemunha em vários passos: «Eu que medito um livro que exacerbe / quisera que o real e a análise mo dessem»; «eu tudo encontro alegremente exacto»; «o ritmo do vivo e do real». No entanto, este ritmo a que alude ganha um envolvimento complexo que deriva de um conjunto de desenvolvimentos verbais ou registos que lhe são próprios, os quais muito têm a ver com a organização sonora do verso, a sua disposição estrófica que lhe dá um contorno especialmente modelado (não se detendo em enjambements insólitos como este: «E saio. A noite pesa, esmaga. Nos / passeios de lajedo arrastam-se as impuras») e um sentido de coesão que deriva de sequências que representam uma articulação metonímica apoiada por um desenvolvimento descritivo (ou, até, aditivo como ocorre, explicitamente, no início desta passagem: «E mais: as costureiras, as floristas / descem dos magasins»).
A contiguidade textual desempenha um papel importante na poesia de Cesário Verde, como se pode ver no recurso ao assíndeto, o qual ganha uma dimensão especial se estivermos atentos à maneira como se sujeita ao ritmo escandido do verso, ganhando as notações justapostas uma movimentação entonacional harmoniosa. É o que se pode apreender neste verso: "as virações, o rio, os astros, a paisagem", ou no modo como se faz da melhor maneira, sob o ponto de vista rítmico, a enumeração dos cinco sentidos: «o tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!». (...) Cesário Verde recorre apropriadamente à metaforização ou, até, a formas de comparação que não raro se tornam transfiguradoras pelo modo como aí convergem imagens compósitas ou palavras com registos semânticos diferentes. A hipálage - processo de adjectivar que é exemplarmente usado por Eça de Queirós - será um dos momentos retoricamente mais marcados de tal convergência, como se pode ver em casos deste tipo: «um cheiro salutar e honesto a pão no forno».
(...) Outra aspecto importante na poesia de Cesário Verde diz respeito ao papel que nela desempenha o eu. Se a referência ao eu é recorrente, nem por isso a confessionalidade é uma das características a ter em conta. Trata-se de um eu-personagem ou de um eu-reminiscente que não conduz em directo a uma identificaçâo autobiográfica, na medida em que surge como instância do próprio texto. (...) O que importa salientar é que tudo isto implica uma autocorrecçâo emocional da própria expressão poética, a qual poderá ser antecipada por uma figuração irónica (...). No entanto, a ironia ou a capacidade transfiguradora que nela existe pode ganhar em Cesário Verde efeitos expressivamente mais válidos e que não estão de todo ausentes quando se consideram certas dominantes sémicas que se articulam entre si, criando um conjunto de descrições contrastantes sobretudo pelos valores positivo ou negativo de que parecem estar revestidas (e é, por vezes, ironicamente que esses valores se podem relativizar), os quais dizem respeito ao que vários críticos têm designado como sendo o contraste com que na obra de Cesário Verde se descreve o campo e a cidade, a «dama fatal» e a mulher doce, amorável e fraterna - isto é, a «débil» vista idealmente - ou o próprio sentido de vida e o sentido da morte.
O contraste ou binómio campo-cidade foi especialmente posto em destaque por David Mourão-Ferreira e Joel Serrão. (...) Vimos atrás que o uso recorrente da primeira pessoa - consequentemente desprovido de uma «emoção psicológica e íntima» - faz com que o eu seja apenas o narrador do poema, o que lhe empresta, por vezes, um tom coloquial que (...) ganha inflexões que moldam de um modo particularmente significativo a sua poesia: o expletivo, o reticente, o parentético, o uso de frases nominais, a linguagem familiar (através de palavras como «biscate», «ateimar», etc.) ou de extracção mais snob (utilização repetida de termos franceses ou ingleses).
O que há de inovador em muitos destes aspectos contribuiu para que a sua poesia tivesse uma má recepção inicial (...). Outro ponto de vista crítico que se generalizou decorre do facto de se considerar o poeta como um representante da «ideologia da pequena burguesia mercantil e trabalhadora», ou como um autor de poemas que são «uma crítica objectiva e um julgamento subjectivo da sociedade contemporânea», isto é, das «circunstâncias sociais injustas». Cabral Martins, pegando na ideia de justiça - e reforçando-a com esta afirmação de Cesário Verde numa carta para Silva Pinto: «o que eu desejo é aliar ao lirismo a ideia de justiça» -, prefere entendê-la de acordo com um sentido que se aproxima mais do de justeza, a qual estaria dependente sobretudo de uma «poética da exactidão». Outra questão, que, como a anterior, é de certo modo aleatória, consiste no paralelismo que se estabeleceria entre a poesia de Cesário Verde - cujo carácter visualista ele próprio reconhece: «pinto quadros por letras, por sinais» - e as artes plásticas, nomeadamente a possível referência
ao quadro de Courbet Les casseurs de pierre, que duvidosamente se poderia relacionar com «Cristalizações», às tendências impressionistas (ou, se se fizer uma aproximação mais adequada, a pintura do chamado Grupo do Leão.”
in Dicionário de Literatura Portuguesa, org. e dir. de Álvaro Manuel Machado, Lisboa, Ed. Presença, 1996
Características da poesia de Cesário Verde
A nível temático:
• repórter do quotidiano - «pintor» de ambientes; o deambulismo origina a associação entre as impressões transmitidas pelo real exterior e as reflexões do poeta.
• binómio cidade/campo - a cidade é conotada com a doença e com a morte; o campo surge como um espaço de energia e de força vital, como fonte de vida e de refúgio.
• crítica social - denúncia da oposição entre a vida egoísta daqueles que são social e economicamente favorecidos e a miséria que condena os pobres.
A nível estilístico:
- defesa de uma estética anti-romântica
- precisão na construção da estrofe e do verso (verso decassilábico e alexandrino - dez e doze sílabas métricas, respectivamente)
- tradução plástica da realidade
- exactidão vocabular
- coexistência de registos de língua (literário, corrente e familiar)
- dupla e tripla adjectivação
- utilização estilística do diminutivo
- recurso à ironia
- impressionismo (captação do real através de impressões - cor, luz, forma, movimento)
- antecipação do surrealismo - imaginação transformadora do real
Cesário Verde (1855 - 1886) - um curto apontamento sobre a sua vida e obra
Nascido José Joaquim Cesário Verde, e filho de um comerciante que possuía uma loja de ferragens em Lisboa e uma quinta em Linda-a-Pastora, Cesário Verde passa a infância entre o espaço citadino e o espaço rural, binómio que será marcante na sua obra.
Em 1873, matricula-se no Curso Superior de Letras, que abandonará pouco depois, mas onde trava conhecimento com algumas figuras da vida literária de Oitocentos, como Silva Pinto, que se tornará seu grande amigo.
Durante a juventude, tem a oportunidade de viajar pelos grandes centros cosmopolitas europeus (Paris e Londres), na qualidade de correspondente comercial da loja do seu pai, e deixa vários poemas dispersos por jornais e revistas, como o Diário de Notícias, o Diário da Tarde, Novidades, A Harpa, Tribuna, Mosaico, A Evolução, Ocidente, Renascença, A Ilustração ou o Jornal de Viagens, acolhidos com apreciações críticas quase sempre desfavoráveis (Ramalho Ortigão, Fialho de Almeida, Teófilo Braga) ou simplesmente ignorados.
Em 1874, aparece anunciada a edição para breve de um livro de Cesário Verde, intitulado Cânticos do Realismo, o que, porém, não sucederia. A partir de 1879, desiludido com a incompreensão do mundo intelectual ("A crítica segundo o método de Taine / Ignoram-na."; "A imprensa / Vale um desdém solene", de "Contrariedades"), Cesário dedica-se cada vez mais a assistir o pai na loja de ferragens e na exploração da quinta.
Em 1882, morre-lhe um irmão, de tuberculose, tal como a irmã, morta dez anos antes. Aos 31 anos, ele próprio morre, vítima da mesma doença. Em 1887, Silva Pinto publica a primeira edição, limitada, de O Livro de Cesário Verde, destinada a ofertas a amigos do escritor. Só em 1901 é dada à estampa uma segunda edição, já distribuída pelas livrarias.
A poesia de Cesário Verde é prefiguradora de uma modernidade estética só inteiramente reconhecida no século XX. Como afirmou Joel Serrão, "a leitura e o estudo dos testemunhos dos conviventes de Cesário dados a público aquando da morte do poeta provam que ninguém, ninguém mesmo, entendera a excepcional qualidade da poesia que o poeta negociante legara ao sempre incerto futuro", e dificilmente cabe nas classificações da história literária.
Com efeito, se a representação pictórica dos ambientes e a descrição plástica da realidade, alicerçada em notações sensoriais
Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canário - que infantil chilrada! -
Lidam ménages entre as gelosias.
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.
(de "Num bairro moderno"),
o aproximam do Realismo, do Parnasianismo e até do Naturalismo em poesia, mediante a busca do célebre livro baseado no "real" e na "análise"; se o interesse votado aos fracos e humildes ecoa ainda influências do Romantismo social , como podemos ver em:
Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito,
Soltando fundos ais e trémulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito.
Pesada e secamente, em cima duns tapumes
(de "Desastre")
ou em:
Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.
(de "Contrariedades),
não é menos verdade que a imaginação e o trabalho do poeta conduzem quase sempre a uma recriação impressionista ou fantasista da realidade.
Algumas das características principais na escrita de Cesário Verde são: um vocabulário objectivo; imagens extremamente visuais de modo a dar uma dimensão realista do mundo (daí poeta pintor); o pormenor descritivo; a mistura do físico e do moral; a combinação de sensações; o uso de sinestesias, metáforas, comparações; o emprego de dois ou mais adjectivos a qualificar o mesmo substantivo; a utilização de quadras, em versos decassilábicos ou alexandrinos; a utilização do “enjambement”.
Dados biobibliográficos
Data e local de nascimento:
25 de Fevereiro de 1855, em Lisboa.
Data e local de morte:
19 de Julho de 1886, em Lisboa.
Outras obras editadas:
Obra Completa de Cesário Verde, 1964; Obra Poética e Epistolografia, 1999; O Sentimento dum Ocidental, 2003.
sábado, 18 de abril de 2009
Como fazer referências bibliográficas
Existem Normas Portuguesas para a elaboração de referências bibliográficas. Cumprir estas normas significa uniformidade e uma maior facilidade de compreensão do que é referenciado. Para além destas Normas existem também Normas Estrangeiras.
No caso de Portugal, deveremos seguir a Norma Portuguesa NP 405-1, a qual também se refere às citações.
Quando elaborares os teus trabalhos escolares, deves incluir sempre os dados sobre todo o material utilizado para desenvolver a pesquisa, incluindo os sites da Internet. Esses dados constituem a Bibliografia do teu trabalho, isto é, a lista das referências bibliográficas, ou conjunto de elementos que descrevem os documentos consultados, de modo a permitir a sua identificação.
Normas Portuguesas
- Estabelecem as regras para a transcrição e apresentação da informação, contida nas fontes da publicação a referenciar e para a apresentação de bibliografias e citações bibliográficas.
Nota: Os elementos a utilizar na referência bibliográfica são retirados, em geral, do próprio documento e de preferência da página de rosto. Sempre que tais elementos não constem da página de rosto deve-se recorrer ao colofão, capa, lombada, prefácio, etc. Nesse caso a informação deverá ser apresentada entre parênteses recto.
NP 405-1 – Referências bibliográficas de documentos impressos - Especifica os elementos relativos a:
· monografias;
· publicações em série;
· séries monográficas;
· teses, dissertações;
· normas;
· patentes;
· música impressa;
· resumos.
NP 405-2 – Materiais não-livro - Especifica os elementos das referências bibliográficas relativas a:
· documentos icónicos;
· filmes;
· multimédia;
· registos vídeo;
· registos sonoros;
· objectos;
· projecções visuais.
NP 405-3 – Documentos não publicados
Geralmente refere-se aos documentos de tiragem reduzida que não foram integrados num circuito formal de distribuição. Especifica os elementos relativos a documentos impressos de tipologia variada (monografias, publicações em série, cartas, Ofícios, circulares), manuscritos, música impressa, materiais cartográficos, materiais não -livro. Esta Norma deverá ser sempre utilizada juntamente com a NP 405-1 e NP 405-2.
NP 405-4 – Documentos electrónicos - Especifica os elementos relativos a:
· monografias;
· bases de dados;
· programas;
· partes e contribuições desses documentos;
· publicações em série; artigos e outras publicações.
Alguns conceitos
Bibliografia – Documento secundário que apresenta uma lista de referências bibliográficas segundo uma ordem específica e que contém elementos descritivos de documentos, que permitem a sua identificação;
Citação – Forma breve de referência colocada entre parênteses no interior do texto ou anexada ao texto como nota em pé de página, no fim do capítulo ou do texto.
Seguidamente iremos ver algumas das regras a que nos referimos acima.
PARA LIVROS
AUTOR(es) – Título : subtítulo (destacado). Edição. Local de edição : Editor, ano. ISBN (se estiver presente a referência ao mesmo no livro, geralmente na contra-capa, ou na ficha técnica).
Com um autor
TOLKIEN, J. R. R. - A irmandade do anel. In "O senhor dos anéis". 13.ª ed. Mem Martins : Europa-América, 2002. ISBN 972-1-04102-5. vol. 1.
Com dois autores
ELKINGTON, John ; HAILES, Júlia – Guia do jovem consumidor ecológico. Lisboa : Gradiva, 1992. ISBN 972-662-230-1.
Com três autores
GORDON, V. O. ; IVANOV, Yu. B. ; SOLNTSEVA, T. E. – Problemas de geometria descriptiva. 2ª ed. Moscovo : Editorial Mir, 1980.
Com quatro ou mais autores
NOBRE, António, [et al.]– Biologia funcional. Coimbra : Almedina, 1984.
Nota: Nestes casos, referimos só o primeiro autor, ou o que tiver maior destaque, seguido da abreviatura da expressão latina et alii. [et al.], que significa “e outros”.
Para livros traduzidos
FALCÓN MARTÍNEZ, Constantino - Dicionário de mitologia clássica . 1ª ed. Lisboa : Presença, 1997. ISBN 972-23-2219-2.
Nota: O apelido dos autores espanhóis é constituído pelos dois últimos nomes.
a) autor diferente do autor do livro no todo
Autor do cap. – Título do cap. In Autor do livro – Título: subtítulo. Edição. Local de edição : Editor, ano. ISBN. Páginas (inicial e final do capítulo).
PEREIRA, Maria Helena da Rocha - O Jardim das Hespérides. In CENTENO, Yvette Kace, coord. ; FREITAS, Lima de, coord. - A simbólica do espaço. 1ª ed. Lisboa : Editorial Estampa, 1991. ISBN 972-33-0781-2. p. 17-28.
b) o autor do capítulo é o autor do livro no todo
STRUIK, Dirk J. – História concisa das Matemáticas; trad. João Cosme Santos Guerreiro. 3ª ed. Lisboa : Gradiva, 1997. ISBN 972-662-251-4. p. 29-44.
ARTIGOS EM PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS
AUTOR do art. – Título do art. Título da publicação periódica. ISSN. Volume, Número, (data), Páginas.
SANTOS, Carlos – Escola a tempo inteiro passa rasteira aos pais. Diário de Coimbra. Ano 76º, Nº 25.679 (15 Set.2006), p. 6.
REFERÊNCIA A DOCUMENTOS LEGISLATIVOS
DESPACHO normativo nº 1/2006. D.R. I Série-B. Nº 5 (6-Jan-2006), p.156-160.
DECRETO-LEI nº 27/2006. D.R. I Série-A Nº30 (10 Fev. 2006). P1095-1099.
FILMES, DOCUMENTÁRIOS... EM VÍDEO, DVD OU CD-ROM
Realizador. – Título. Local da distribuição : distribuidor, data. Descrição física.
Nota: Quando não figura o local de distribuição, mas sabemos qual é esse local através de fontes externas ao documento (pesquisa na Internet, por exemplo), inserimo-lo dentro de parênteses rectos.
DOCUMENTOS ELECTRÓNICOS
AUTOR. – Título : subtítulo (se houver). Edição. Local : editor, data, data de actualização. [Data de consulta] Disponibilidade e acesso.
Exemplos
RODRIGUES, Eloy – Implementação de um sistema integrado de gestão de bibliotecas: a experiência da Universidade do Minho. Braga : Universidade do Minho, 2004. [Consult. 10 Set. 2004]. Disponível na Internet: http://repositorium.sdum.uminho.pt/
COMO SE TRANSMITE O VIH? Lisboa : Comissão Nacional de Luta contra a SIDA, 2004. [Consult. 10 Jan. 2005]. Disponível na Internet: http:/www.sida.pt/.
Convém que te lembres de que:
· Os elementos das referências bibliográficas são retirados dos próprios documentos.
· Deves alinhar as referências à esquerda, em espaço simples e separadas entre si por espaço duplo.
· A Bibliografia é ordenada alfabeticamente.
Pode ser encontrada mais informação sobre este assunto nos Serviços de Documentação da Universidade do Minho.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
423
Where’s Mexico? Where’s my only cigarette? Dónde es Mexico? Dónde está mi único cigarrillo?
Es aquí. No lo sé. Pero tengo un, si así lo deseas.
Gracias. A simpatia deste povo comove-me. E uma súbita sede imensa faz-me crer que o Sol se está mesmo a pôr no México. Mas há algo que me chama a atenção. Já me dói a cabeça por causa do raio da luzinha azul. Insistente. Regresso à realidade, apesar de aturdida. Trato de me aproximar da luzinha azul e lanço-me a ela na esperança de encontrar uma música que leve a outras paragens; gosto tanto de viajar. Elvis! É tudo o que eu quero! Paro no E e começo a ouvir aquela batida maravilhosa. Já está tudo com aspecto de realidade. Dispenso! Acendo outro charro que acabei de fazer. Now and then there’s a fool such as I. Estou como quero estar. Segue-se Suspicious Minds e eu acendo a minha vela de baunilha. Não resisto, o meu corpo mexe-se atabalhoadamente sem eu pedir nada. Rigorosamente nada. Visitei a Colômbia, África do Sul e o México, mas o Sol já se pôs, faz tempo. Então vou à casa de banho; aproximo-me do espelho, os meus olhos nem estão muito vermelhos, faço o risco preto, dou um jeito ao cabelo. Volto ao quarto, salpico-me com o meu perfume, pego na mala e saio de casa mais que feliz.
Love me tender, love me dear
Tell me you are mine.
I’ll be yours through all the years
Till the end of time.
Continua a luzinha azul a cantar.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Dois concursos
UM LIVRO NUMA FOTO
A Direcção-Geral dos Livros e das Bibliotecas (DGLB), do Ministério da Cultura, promove um concurso/passatempo, em que os alunos do 3º ciclo e do ensino secundário podem participar.
No primeiro caso, trata-se de tirar uma fotografia no dia 23 de Abril que retrate uma situação de leitura ou que esteja relacionada com livros.
Essa fotografia deverá ser acompanhada de uma legenda, com o máximo de 2º palavras.
Depois, a fotografia e a legenda deverão ser enviados por correio electrónico para o seguinte endereço: dsl@dglb.pt
Na mensagem terá que constar o nome do aluno, a sua morada e o seu contacto telefónico, bem como o nome da escola que frequenta.
Se na fotografia aparecerem pessoas, o concorrente terá que garantir que a publicação da fotografia dessas pessoas está autorizada por elas.
A data limite para envio dos trabalhos é 15 de Maio de 2009.
O júri escolherá as 15 melhores fotografias, que serão divulgadas no site da DGLB.
Todos os concorrentes seleccionados receberão livros.
Se não houver a possibilidade de enviar por correio electrónico, a fotografia e o documento com a legenda, a identificação do concorrente e outros dados eventuais (a autorização acima referida, se for o caso) poderão ser enviados para o seguinte endereço:
Direcção de Serviços do Livro
Direcção-Geral dos Livros e das Bibliotecas
Campo Grande, 83 – 1º
1700-088 Lisboa
O regulamento integral pode ser consultado aqui.
TORNEIO POÉTICO
A Direcção-Geral dos Livros e das Bibliotecas (DGLB), do Ministério da Cultura, está a promover um concurso, no âmbito do Dia Mundial da Poesia (21 de Março) e do Dia Mundial do Livro (23 de Abril) e do Ano Europeu da Criatividade e Inovação, sobre os poetas António Botto e Jorge de Sena.
Podem participar todos os estudantes do 3º ciclo (integrados na Categoria A) e do ensino secundário (integrados na Categoria B).
Os trabalhos devem ser entregues na Biblioteca Escolar ou na Biblioteca Municipal da área de residência dos alunos até ao dia 15 de Maio de 2009.
Os trabalhos a concurso podem ser um desenvolvimento, em verso ou em prosa de ficção, num máximo de duas páginas A4, de uma das estrofes de António Botto ou de Jorge de Sena, abaixo transcritas:
Afirmam que a vida é breve,
Engano – a vida é comprida:
Cabe nela amor eterno
E ainda sobeja vida.
(in António Botto, Pequenas Esculturas, 1925)
Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.
(in António Botto, Dandismo, 1928)
Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
[…]
(in Jorge de Sena, «Uma Pequenina Luz», Fidelidade, 1958)
Amo-te muito, meu amor, e tanto
Que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
Depois de ter-te, meu amor. Não finda
Com o próprio amor o amor do teu encanto.
[…]
(in Jorge de Sena, «Soneto VIII», As Evidências, 1955)
Os trabalhos serão apreciados por um júri, sendo seleccionados três trabalhos (1º, 2º e 3º), tendo em consideração o bom domínio da língua portuguesa, tanto a nível gramatical como dos seus recursos expressivos, uma boa exposição e articulação das ideias, e o conhecimento da obra os poetas seleccionados.
Os prémios serão conjuntos de livros e os trabalhos premiados serão publicados no site da DGLB.
As bibliotecas que receberem os trabalhos deverão enviá-los até ao dia 30 de Maio.
O regulamento integral pode ser consultado aqui.
domingo, 12 de abril de 2009
t300
Aliviado pela brisa leve desta janela. Penetra a luz, escapa-se esta apatia.
Morro no meu leito, perdida nos meus lençóis sujos e gastos por esse tempo insaciável.
À tua espera cai este corpo assolado pela dor que é uma vida.
Consigo perceber algo que não conseguira antes: compreendo a distância teimosa que nos separa.
Uma distância que talvez nunca ultrapassemos. Por isso confio-me a este lúcido ópio que me transcende e me eleva até ao teu ser.
Bem tendo chorar
mas já não o sei. Como que se tivesse esgotado todas as lágrimas.
Adormeço perdida, mais uma vez perdida, na imensidão deste quarto pútrido. Não sei se acordarei outra vez, para passar outro dia como este. De que me servirá acordar se tu não estás? Afogo-me, então, mais uma vez nesta depressão.
Hipnotizei. Vazio.
terça-feira, 7 de abril de 2009
Pensamento absurdo do dia V
segunda-feira, 6 de abril de 2009
domingo, 5 de abril de 2009
Pensamento absurdo do dia III
sábado, 4 de abril de 2009
Pensamento absurdo do dia II
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Pensamento aburdo do dia I
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Avaliações do 2º período
quarta-feira, 18 de março de 2009
terça-feira, 17 de março de 2009
domingo, 15 de março de 2009
Celebrando a fragilidade patética da vida.
Há na vida de uma pessoa um instante decisivo, uma prova radical a seguir à qual já nada é como dantes. As feridas estão a sarar, já não ardem nem magoam como outrora o fizeram. A má-disposição matinal que se prolongava por dias já lá foi, já lá vai.Porto, Casa sa Música. 12 de Março de 2009
quarta-feira, 11 de março de 2009
Testes sobre Os Maias, de Eça de Queirós
Ficha formativa sobre Os Maias, de Eça de Queirós
Aqui fica uma ligação a uma ficha formativa sobre a obra em estudo de Eça de Queirós.
terça-feira, 3 de março de 2009
Os Maias - uma breve análise
Os Maias desenvolvem-se em duas instâncias, correspondentes respectivamente ao título e subtítulo: uma instância trágica e psicológica que nos pode fazê-lo classificar como romance psicológico, e uma instância cómica e satírica que nos leva a considerá-lo como um romance de costumes ou documental.
Os elementos que definem cada uma destas instâncias são: no plano trágico-psicológico, o insólito da situação; a fatalidade (ligada à casa do Ramalhete); a infracção involuntária (o incesto); o reconhecimento de identidades; a expiação ou purificação (o afastamento catártico de Carlos); a grandeza das personagens que avultam e se distinguem dos demais; a intenção trágica de suscitar "terror e piedade". No plano cómico-satírico existe a caricatura (de personagens e situações que se aproximam por vezes do "grotesco"); a análise social e psicológica; a crítica social; a intenção de suscitar o riso purificador e corrector.
Este romance é um romance de experiência, reflectindo, em muitos aspectos, a própria vivência do Autor.
Representa uma sociedade de transição, sociedade finissecular, caracterizada por uma aparência de despreocupada alegria de viver, escondendo um não disfarçado "mal du siècle", em que se efectuam importantes modificações sociais (o capitalismo, representado por Cohen, Cruges, etc., consequência duma industrialização tecnológica em plena expansão); a alta burguesia endinheirada que alcança o estatuto da velha aristocracia ou falha nessa pretensão, inibida por um ridículo novo-riquismo (Dâmaso Salcede). Reflecte também a transição de perspectiva estética, do Romantismo para o Realismo: o primeiro representado pelo velho poeta Tomás de Alencar (caracterizado habilmente com os mesmos epítetos que Eça aplicava ao próprio Romantismo: "antiquado, artificial e lúgubre..."; "voz arrastada, cavernosa, ateatrada"; o segundo representado pelo jovem positivista e ao mesmo tempo idealista João da Ega.
Os personagens são tratados diferentemente, segundo se enquadram em cada uma das dimensões apontadas: Maria Eduarda, Carlos Eduardo e Afonso da Maia (três personagens, à maneira trágica) são tratados com gravidade e apresentados como personagens modelados e dotados duma dinâmica psicológica. Dâmaso Salcede, o conde e a condessa de Gouvarinho, Cruges, Raquel, etc., etc., são tratados sob uma perspectiva caricatural. João da Ega ocupa uma posição diversa, de comentador e porta-voz.
Observando a obra no seu conjunto, podemos dizer que se trata dum romance polifónico, isto é, de muitas perspectivas e capaz de ser submetido a vários pontos de vista de análise. Assim, a sua classificação tipológica é, também, ambígua. É um romance de acontecimento ou de acção, na medida em que dá conta de um acontecimento central (os amores interditos de Maria Eduarda e Carlos da Maia); romance psicológico se considerarmos a dinâmica dos personagens e o ritmo psicológico a que estão submetidos. Mas podemos também considerá-lo um romance espácio-temporal, na medida em que dá conta de um ambiente humano, político, social, económico, num espaço limitado: a cidade de Lisboa (com os seus arredores) e, ocasionalmente, Santa Olávia.
Quanto à delimitação, é um romance aberto, na medida em que, ao fechar a última página, o destino de Carlos não está ainda concluído. O capítulo XVII encerraria, de facto, de modo definitivo e fechado o destino dos personagens: "E foi assim que ele (Ega) pela derradeira vez na vida viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, à portinhola daquele vagão que para sempre a levava". Contudo, o final do cap. XVIII e último dá um novo significado ao romance: Carlos da Maia corre para o americano e, certamente, também para a vida, fechadas sobre o seu passado as portas do Ramalhete.
Eça é notável sobretudo pela criação de atmosferas e tipos arrancados à realidade. As suas tendências realistas, fundamentadas num cientismo psicológico, fazem-lhe encarar certas realidades lamentáveis à luz das suas causas e consequências, sem, contudo, deixar de condenar o erro. Assim, vemos Luísa (personagem de O Primo Basílio), cujo erro foi condicionado por diversas circunstâncias de educação, temperamento e casualidades fortuitas. Ela não errou por força do destino ou por sujeição a uma fatalidade: errou por causas bem determinadas, e objectivamente analisadas. Luísa é, porém, terrivelmente castigada pelo sucesso dos acontecimentos. O caso de Amaro (O Crime do Padre Amaro) é simétrico e paralelo: ele é o produto de uma sociedade errada e de uma educação viciosa.
O Estilo
Foi, contudo, talvez como estilista que Eça mais se impôs na Literatura Portuguesa. Efectivamente, é com ele que um sopro arejado e vivificador vem renovar a Língua Portuguesa que perde, porventura, em vernaculidade e em pureza, mas ganha em maleabilidade e possibilidades expressivas. Amadurecida a partir de Vieira, a Língua Portuguesa apresenta, por assim dizer, a mesma grave fisionomia durante os séculos XVIII e XIX, excepção feita a Garrett. A partir de Eça de Queirós, vemo-nos, finalmente, na posse duma língua dúctil, aligeirada, adaptada às necessidades modernas da expressão.
Vejamos as principais características sistematizáveis no seu estilo:
- uso do discurso semidirecto, que assim se transfere para um plano de objectividade analítica;
- desnivelamento da adjectivação (hipálage), isto é: a um substantivo concreto atribui uma qualidade de ordem abstracta; a um ser inanimado confere atributos humanos, e vice-versa: "monte facundo de jornais", "luz pensativa", "adro grave", etc. Este aspecto confere à sua prosa um tom inesperado e surpreendente;
- uso do estilo impressionista, com a notação de sensações que, sugeridas ao leitor, lhe permitem reconstituir a realidade: as suas descrições de paisagens e ambientes são feitas, sobretudo, através de indicação de cores, tonalidades, ruídos, aromas, sensações de quente, frio, etc. (presente frequentemente na descrição).
- indicação do pormenor material: "cruz de pedra", "corrente de ferro", etc.;
- capacidade de criação imagética que confere à sua linguagem (um tom poético).
Quanto aos processos de construção romanesca, apontaremos sobretudo o processo realista de começar a acção no meio; o leitor é posto imediatamente no interior do ambiente em que vai decorrer a intriga.
Eça descreve não o ambiente, mas os dados concretos desse ambiente.
Quanto às personagens, procede identicamente: é através do vestuário, dos ademanes (as "maneiras" das personagens), da linguagem, das ideias expressas que nós, leitores, reconstituímos uma dada personagem. Desse modo, tal como na vida real, não é logo ao primeiro contacto que nos é delineada a personalidade em questão; mas é no decorrer do entrecho, depois de intervenções sucessivas, que nos é permitido travar conhecimento cada vez mais completo com cada personagem. Pouco a pouco, depois de encontrarmos uma vez e outra João da Ega, e outros, é que se nos vai desvendando o respectivo carácter.
in BUESCU, Maria Leonor Carvalhão - Apontamentos de Literatura Portuguesa. PORTO: Porto Editora, 1984
Os Maias - análise em ficheiros MP3
A partir desta ligação, podem obter vários ficheiros de som sobre a análise de Os Maias, em MP3.
Os Maias - texto integral para ler no computador
A partir desta ligação, podem obter o texto completo de Os Maias, capítulo a capítulo, para ler no computador.
Se preferirem uma outra versão, em PDF, podem clicar aqui.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Correcção do teste sobre Frei Luís de Sousa
Aqui fica uma correcção do teste realizado sobre a obra de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. Não foi aqui incluída a resposta ao último grupo.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Um blogue sobre Os Maias, com vídeos
Aqui fica também a divulgação de um blogue sobre a série televisiva Os Maias.
Os Maias em áudio
Nesta ligação pode-se ter acesso a ficheiros de som de todos os capítulos de Os Maias. No entanto, os ficheiros são Real Audio, em streaming, e a pronúncia é de português do Brasil.
O Realismo na literatura portuguesa
Não é empresa fácil historiar - e muito menos resumir - o complexo movimento chamado «Realismo» na literatura portuguesa do séc. XIX. Por trás dessa palavra escondem-se e convivem fenómenos e atitudes estéticas de natureza muito diversa. Abre esse período a ruidosa Questão Coimbrã, polémica literária que significou - na frase de Teófilo Braga - «a dissolução do Romantismo». Nela se manifestou pela primeira vez o protesto da geração nascida por meados do século contra o exagero balofo e caduco do gosto romântico, convertido em gesto vazio de monótona artificiosidade. Dela surgiu o Realismo.
A França - e através desta a Alemanha e a Inglaterra - foi a principal inspiradora dos dirigentes da rebelião coimbrã.
Entre 1860 e 1865 saturaram-se de cultura europeia, aspirando os ares que vinham de fora, absorvendo de golpe o humanitarismo social francês de 48. Leram e decoraram Proudhon e Quinet, o satanismo baudelairiano, a erudição histórica de Leconte de Lisle, o determinismo de Taine, as eloquências liberais humanitárias de Hugo, o diletantismo critico de Renan, o revolucionarismo apostólico de Michelet, - e ainda Hegel, e Heine, e Darwin, e Flaubert.
Espíritos muitos díspares, tinham, porém, em comum o prurido de irreverência e de liberdade, o sentimento de revolta contra a estagnação do Ultra-Romantismo constitucionalista e o intuito de renovação do clima das letras e da vida portuguesa. Fora desta comunidade de formação e de atitude geracional, cada um deles seguiu uma trajectória criadora e vital acentuadamente diferenciada.
Contudo, Antero de Quental, Teófilo Braga, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro - e Ramalho Ortigão e Oliveira Martins, que depois se lhes uniram - surgem nos manuais de literatura agrupados sob a epígrafe de «Realismo», naquela que ficou conhecida como a Geração de 70.
De facto, a palavra «realismo» já se envolvera na contenda literária de 1865-66 e fora utilizada como sinónimo de «arte nova» ou «estilo coimbrão».
Um dos espíritos críticos mais avisados da época, Luciano Cordeiro, publicou um artigo n'A Revolução de Setembro (a 7 de Novembro de 1867), intitulado «A arte realista», no qual, adoptando uma posição ecléctica, criticava fortemente quer os moços que injuriavam o escritor ultra-romântico António Feliciano de Castilho em nome da «verdade» artística do «Realismo», quer os ultra-românticos que tremiam de furor e desespero à simples a menção da odiada palavra.
Cordeiro acusava tanto uns como outros a de aceitar como «Realismo» a banal e superficial «tradução da objectividade material das coisas». E anunciava, com a dissolução do Romantismo, periclitante e decrépito, o advento da «escola critica», que, falando à consciência e à razão e exigindo maior cultura intelectual e mais profundo conhecimento dos problemas filosóficos e sociais da época, repudiaria tanto o realismo materialista da arte pela arte como a «inspiração» romântica - cuja manifestação nesse momento era o lirismo sentimental e elegíaco e o formalismo estreitamente provinciano da literatura oficial, na poesia e no romance.
O segundo episódio do processo de aparecimento do Realismo verificou-se em 1871, nas Conferências Democráticas do Casino. Nesta nova manifestação pública da geração de Coimbra, já em plena maturidade, os contornos do Realismo desenharam-se mais nitidamente, embora a sua formulação teórica estivesse longe de responder aos postulados doutrinais hoje aceites como basilares do Realismo de escola francês.
Eça de Queirós, que na Questão de 1865 fora simples espectador, e que até 1871 apenas se manifestara literariamente com uma nebulosa mistura de retalhos de romantismos de além-fronteiras e de parnasianismos de cunho satânico, foi agora o expositor doutrinário da «nova literatura».
A sua conferência versou sobre «O Realismo como nova expressão da Arte» - título em que aparecia a palavra pomo de discórdia. Sob a influência de Antero de Quental, Eça aproximou curiosamente as teorias tainianas do determinismo do meio com os postulados estético-sociais de Proudhon, vergastando o estado decadente das letras nacionais e propugnando uma arte que respondesse às aspirações do espírito dos tempos, que agisse como regeneradora da consciência social e que, desterrando o falso, pintasse a realidade. Essa arte, uma arte revolucionária, era o Realismo; relegando a arte pela arte, a retórica vácua e a invenção romanesca, procedia pela observação e pela experiência, pela fisiologia, ciência dos temperamentos e dos caracteres; enfim, visava a dilucidação dos problemas morais e o aperfeiçoamento da Humanidade.
Com este cientificismo Eça já situava o Realismo, consciente ou inconscientemente, adentro do Naturalismo de Zola.
A conferência de Eça provocou nova batalha. Nas páginas d' A Revolução de Setembro, Pinheiro Chagas - que fora motivo e combatente no recontro de 1865 - atacou Eça e o detestado Realismo. Outras penas, porém, saíram em defesa do conferencista e das suas ideias. E novamente Luciano Cordeiro entrou na lide, comentando a dissertação e salientando que já ele, em 1868, tinha defendido ideias parecidas, ao falar do seu conceito tainiano da arte.
Dois anos mais tarde Eça publicou o conto «Singularidades duma Rapariga Loira» (recolhido em Contos, 1902) - que, na opinião de Fialho de Almeida, é «a primeira narrativa realista escrita em português».
A batalha efectiva da implantação do Realismo no romance começou com a publicação d'O Crime do Padre Amaro, seguida dois anos mais tarde por O Primo Basílio, obras caracterizadas ambas por métodos de narração e de descrição baseados numa minuciosa observação e análise psicofisiológicas, com a anatomia moral das personagens referida a factores deterministas de meio, educação e hereditariedade, à maneira de Zola - e com evidente intuito de crítica de costumes e reforma social.
O primeiro destes romances foi acolhido pelos críticos com um silêncio significativo e escandalizado. O segundo provocou o escândalo aberto. A colisão polémica entre os inimigos dos processos realistas de efabulação e os sequazes da nova tendência alcançou a sua maior virulência em 1880-81. Naquela data novamente Pinheiro Chagas arremete, num jornal brasileiro, contra Eça, tachando-o de antipatriota, pelo modo como apresenta a sociedade portuguesa.
Camilo Castelo Branco, o mestre do romance romântico, então no cume da fama, que em 1879 dera a lume o Eusébio Macário, paródia da técnica narrativa dos realistas, publicava em 1880 A Corja, onde o intuito caricatura era ainda mais evidente. O resultado foi uma violenta polémica, esmaltada de injúrias, na qual tomaram parte apaixonadas penas dum e doutro bando. Curiosamente, Camilo, «realista inconsciente», acabou por aceitar, e empregar de boa fé, muitos dos processos do realismo.
O atrevimento de certos passos dos romances de Eça, principalmente d'O Primo Basílio, escandalizava as pessoas de moral timorata, e chegaram a aparecer folhetos acusando os realistas de contribuírem para a «desmoralização das famílias».
Na década decorrida desde as Conferências Democráticas do Casino, o Realismo lograra um núcleo de adeptos que se empenharam em explicar e defender o seu credo estético, contra a acusação, que os ultra-românticos puseram a circular, de «grosseria» e imoralidade.
Por 1890 o Realismo-Naturalismo tinha perdido a sua vigência. Em 1893, o próprio Eça declara que «o homem experimental, de observação positiva, todo estabelecido sobre documentos, findou (se é que jamais existiu, a não ser em teoria) Positivismo e Idealismo», in Notas Contemporâneas).
Nos outros géneros o Realismo produziu frutos muito desiguais. Não houve uma critica normativa, sistemática. O teatro não foi atingido pelas novas ideias. Não houve drama que possa ser chamado realista; o palco ficou apegado anacronicamente ao gosto romântico. A poesia foi multiforme e teve correntes que se entrecruzaram muito complexamente. Actuaram, com efeito, no período realista tendências assaz divergentes, sujeitas a influências muito diversas. Aliás, a própria natureza do género, de carácter subjectivo, íntimo e pessoal, conspirava contra o predomínio duma determinada doutrina.
A par do revolucionarismo e do angustiado misticismo metafísico de Antero de Quental, encontramos a enfática poesia da Humanidade de Teófilo Braga, o prosaísmo satírico de João Penha, o lirismo social e democrático de Guilherme de Azevedo e de Gomes Leal, o «quotidianismo» citadino e burguês de Cesário Verde, o parnasianismo preciosista de Gonçalves Crespo e o verbo satânico, caudaloso e tonitruante de Guerra Junqueiro, intentando casar Ciência e Poesia.
Resumindo, poderia dizer-se que não foi o Realismo português, visto no seu conjunto, tanto uma escola literária bem definida como um sentimento novo, uma nova atitude espiritual em que couberam direcções e dimensões muito divergentes, que se alçou contra um «idealismo» sem ideais. A sua consequência mais vital e duradoura foi romper a incuriosidade do patriotismo provinciano dos ultra-românticos, abrindo as comportas do espírito nacional a todas as influências de fora, alargando a escolha de motivos literários e renovando as letras duma maneira ampla.
Adaptado do artigo «Realismo» in Jacinto do Prado COELHO. Dicionário de Literatura. Porto: Figueirinhas, 1978

