É pena que os programas de Português nunca cheguem à poesia contemporânea, aos poetas que, ainda vivos, vão escrevendo e publicando nos nossos dias.
Hoje deixo aqui um poema de João Miguel Fernandes Jorge, um dos mais conceituados poetas portugueses actuais, para além de ser um dos que conheço que escreve dos mais belos poemas. É um texto triste, que nos conta uma história, como tantas e tantas que sucedem todos os dias e que, as mais das vezes, nos passam ao lado, que ignoramos, talvez por não nos deixarem indiferentes. E fica aqui à atenção de quem tem por mau hábito abandonar os animais, ou mesmo de os magoar.
Ah, nesta página do sítio da BE/CRE da nossa escola podem ler-se mais alguns poemas. Aqui fica a nota.
O poema intitula-se
PRESÉPIO ANIMADO DA RIBEIRA GRANDE
Ainda todos se lembram do dezembro de 96.
Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte
da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na
berma, um gato de pelagem branca. Parecia
ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa
de pêlo curto, tinha uma chaga na orelha
alastrava pelo crâneo e pela fauce e
olho. Massa disforme de carne e sangue,
pancada de carro ou parede de muro desabado
a ferida. Animal muito manso, delicado e
tímido, deixou que me aproximasse
lhe pegasse e a trouxesse para dentro do
meu carro. Tremia de frio e também de medo e
dor. Enchuguei-a com um pedaço de
flanela, dei por mim chamando-lhe
Princesa: era muito nova, pequena,
de um branco que resistia ao lixo da terra
da quase sarjeta de onde a tirei; olhos
claros, amendoados. A mais
delicada e triste das gatas com a horrível
ferida a alastrar, implacável. Uma
gangrena que exalava cheiro pestilento
- a princesa branca apodrecia no dia
de natal. Havia uma caixa de cartão
no banco traseiro, coloquei-a dentro e
descobri a casa do veterinário. Era uma pasta
de sangue, carne e urina tão assustada
estava. O médico agarrou-a - eles já
cheiraram muita pestinência, os veterinários -
fez-lhe festas. Era muito meiga. Não
pude olhar enquanto a matava; meteu o
corpo branco, ainda quente, na caixa de
cartão. Levei-a, morta, e com aquele cheiro;
já quase noite. Enterrei-a num pequeno
jardim, bem perto do presépio animado da Ribeira
Grande, que nesse fim de dia de natal ainda
visitei. As lágrimas de nada servem, nem
por uma gata branca a que chamei Princesa,
durante uma escassa hora, a debater-se
com a morte. O sangue, a urina
o cheiro da gangrena. Este é o inferno
dos mortais, a sua beleza e fragilidade. A
morte é uma coisa e a vida, a mesma
coisa. A face da morte é o reflexo da
vida quando se debruça sobre a superfície
da ilha. Luze em todos os natais, suave,
esbatida de traços - palavra de traição
que rodeia o medo, o abandono.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Um poema de João Miguel Fernandes Jorge
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