Há imenso tempo que não escrevo, que não tenho cabeça para fazer nada, que não penso em mais nada. Na minha cabeça só reside um único ser, inconfundível, único.São dias e dias a lutar contra o querer, a habituar-me ao rumo que a vida escolheu para mim. Neste planeta frio e solitário me encontro, a tentar achar o meu lugar. Perguntas aparecentemente tão simples atormentam-me dia após dia .. Quem sou? .. O que faço aqui? .. Quem é suposto eu ser? .. O que é correcto fazer? .. Perguntas não me faltam, das respostas não posso dizer o mesmo. A pergunta mais frequente, é aquela que por muito que me expliquem, nunca hei-de conseguir entender o seu significado, pergunta essa que é "Porquê? Porquê que teve de ser assim?". Mas ninguém me sabe responder, ninguém sabe como responder, tenho de viver com a dúvida, e, obrigada a seguir em frente, vou, com o que fica para trás por resolver. Mas da dor mais profunda já consegui abdicar de algumas lágrimas ao mentalizar-me que mais vale lutarmos juntos por algo que sempre houve, e que sempre sobreviveu a tudo, a amizade, que, lutar sozinha por algo que nos atingiu com tamanha intensidade, mas que levaste contigo, que voou com o vento do temporal que tem estado lá fora, nessa tua rota que o destino só tu sabes, à qual te entregaste.
Dia após dia, passo após passo, chuto uma pedrinha pequenina, um grãozinho de areia, vou sobrevivendo ou fazendo por isso .. Cabeça erguida, sim, mas um vazio do pior cá dentro. A cabeça sabe o que fazer, o coração não deixa. Prende-me na sua teia, uma pastilha agarrada aos sapatos que não quer sair .. E mais uma vez pergunto "Porquê?". Não consigo entender, mas tenho de entender, não quero seguir, mas tenho de seguir ..
# nêê..
Foto por: Raquel Rodrigues, o3.Agosto.o8, Marinhais
2 comentários:
Pois é, nê, esse é um dos grandes mistérios da existência, que nos leva a interrogarmo-nos todos os dias, a tentar saber qualquer coisa que nos dê mais um sopro de alento, qualquer coisa mais que nem sempre sabemos o quê.
Mas nunca, nem por nada, nos devemos arrastar pela vida, mesmo que perguntemos, a cada passo, para onde vamos e quem nos leva assim pelos caminhos.
Saber quem somos? Essa é a pergunta que, como dizem os anglófilos, é a «million dollar question». E não conheço ninguém, ninguém que pense, que muitas vezes, quase a todas as horas, não tenha feito a mesma pergunta a si mesmo(a).
Aqui ficam dois poemas de Fernando Pessoa, de dois dos seus heterónimos: Álvero de Campos e Alberto Caeiro:
Álvaro de Campos
Eu
Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar.
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...
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Alberto Caeiro
Poema IX - de O Guardador de Rebanhos
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
Stor, mais uma vez lhe agradeço o comentário, identifico-me totalmente com o segundo poema, o qual já me era conhecido.
Vou caminhando tentando encontrar-me e aguardando puder tornar as minhas escritas mais frequentes e um pouco mais alegres, porque como o stor disse, tenho mesmo de "sair do fosso"
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