sábado, 20 de dezembro de 2008

Um poema sobre o Natal

Para quem gostar, aqui fica um poema de Alberto Caeiro, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, intitulado:

Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou – "Se é que ele as criou, do que duvido."
-"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

1 comentário:

Alexandra Nunez disse...

“Tive um sonho como uma fotografia.”
Confesso ter lido este texto só hoje (e já depois do Natal xD), mas mais vale tarde que nunca! Apesar de ser um poema e eu gostar muito de poemas, é muuuuito extenso e estava a assustar-me um bocadinho… Mas ainda bem que o li, não trata o Natal como todos os outros poemas desta época, torna a situação mais próxima de nós, despindo-a daqueles ‘Truques’ todos que a Igreja criou. Por isso, obrigada Alberto Caeiro, adoro quando se tiram os floreados da questão e se trata a parte prática e verdadeira… ‘Parte verdadeira’ partindo do princípio que há alguma parte verdadeira na história do Menino Jesus; levei já muitas épocas natalícias a questionar-me, em vão, sobre a veracidade da questão, acho que já chega! :P

“A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.”
Então se assim é, todos nós temos um Menino, ou até vários que nos fazem ver as coisas, sejam as pedras ou as flores! (Isto de estarmos no final do ano deixa-me com uma nostalgia do tamanho do Mundo!)

Que o vosso Natal tenha sido muito bom e que entrem maravilhosamente no ano de 2009. E se conduzirem, não bebam! xP
Beijinhos para Todos, os poucos, que ainda visitam o Blog, Alexandra Nunez (: